Mariana Romero Roy
Com a rápida modernização dos ecossistemas de saúde na América Latina, a transição das cirurgias abertas tradicionais para cirurgias assistidas por robô (RAS) vem remodelando o cenário clínico. Antes vista como luxo, a robótica cirúrgica tornou-se um pilar central para hospitais de primeira linha que buscam melhorar seu desempenho em rankings globais, aumentar a precisão e reduzir o tempo de recuperação dos pacientes.
Como resultado, o mercado de robótica médica na América Latina deve crescer de forma significativa nos próximos anos:
Mercado de robótica médica na América Latina em números
- Valor de mercado em 2025: US$ 1,5 bilhão
- Valor de mercado projetado até 2034: US$ 8,4 bilhões
- Projeção da taxa de crescimento anual composta (CAGR): 21%
Para executivos de MedTech, esse crescimento sinaliza uma mudança na região. A América Latina deixou de ser apenas um território emergente e se consolidou como uma região altamente competitiva e de rápida adoção tecnológica. Compreender as especialidades que impulsionam essa adoção, a evolução do cenário competitivo e os modelos comerciais necessários para competir com sucesso é crucial para atuar no mercado latino-americano de cirurgia robótica.
O domínio da robótica em cirurgias de tecidos moles e a evolução da concorrência
Os sistemas de cirurgia assistida por robô geralmente se enquadram em três categorias principais: procedimentos em tecidos moles, sistemas ortopédicos e outros sistemas especializados. Atualmente, as cirurgias em tecidos moles — sobretudo em urologia, ginecologia e gastroenterologia geral — dominam o cenário da RAS. Para os pacientes, esses sistemas possibilitam incisões menores, menor perda de sangue, menos dor pós-operatória e recuperação mais rápida. Para os cirurgiões, a robótica oferece maior destreza e precisão, viabilizando operações complexas em áreas de difícil acesso.
Historicamente, a Intuitive Surgical, Inc. deteve a maior participação de mercado no segmento de tecidos moles com os sistemas Da Vinci. Grandes instituições de saúde em países que adotaram a tecnologia mais cedo, como Brasil e México, investiram fortemente nas plataformas Da Vinci para ampliar suas capacidades cirúrgicas.
No entanto, o mercado passa por uma transformação significativa. A expiração de diversas patentes de primeira geração impulsionou a concorrência global, reduziu os custos da tecnologia e abriu o mercado latino-americano para novos entrantes. Esse movimento vem acelerando a expansão do cenário competitivo de várias formas:
- Concorrentes globais como Medtronic, Microport e CMR Surgical estão entrando em grandes mercados como Brasil, México e Chile.
- A Medtronic lançou recentemente o sistema Hugo RAS no México, desenvolvido especificamente para procedimentos em tecidos moles, ampliando sua presença regional.
- Para ganhar participação de mercado, esses novos entrantes estão indo além da venda tradicional de equipamentos de capital e adotando estratégias comerciais que incluem contratos-piloto e modelos de leasing.
O avanço da robótica ortopédica e a “onda prateada” do envelhecimento populacional
Embora os procedimentos em tecidos moles sejam hoje o principal eixo do mercado de RAS, a robótica ortopédica tem enorme potencial de crescimento futuro. Essa expansão é impulsionada diretamente pela transição demográfica em curso na região, marcada pelo envelhecimento da população.
Os dados a seguir, extraídos de um estudo de junho de 2024 da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), ajudam a dimensionar a magnitude da mudança demográfica na região:
- População da América Latina e do Caribe com 60 anos ou mais em 2024: 95 milhões
- Percentual da população total da região representado por esse grupo: 14%
- Percentual projetado da população da região com 60 anos ou mais até 2050: 25%
Essa população em rápido envelhecimento — a “onda prateada” — impulsiona uma demanda sem precedentes por procedimentos de substituição articular e cirurgias reconstrutivas. Em resposta a essa demanda, hospitais privados de primeira linha vêm recorrendo à assistência robótica para alcançar a precisão anatômica exigida em cirurgias complexas de joelho, quadril e coluna. No setor de ortopedia, vários fabricantes líderes já consolidaram sua presença:
- A Zimmer Biomet é um dos principais players no mercado de robótica ortopédica da região.
- Medtronic, Stryker e Smith & Nephew também ocupam posições relevantes no mercado com suas respectivas plataformas ortopédicas.
Apesar da presença desses grandes fabricantes de equipamentos originais (OEMs), a penetração geral no segmento de robótica ortopédica permanece relativamente baixa na América Latina, deixando amplo espaço para crescimento.
Uma sólida base clínica e acadêmica
Na América Latina, a expansão comercial da cirurgia assistida por robô é sustentada por uma robusta base acadêmica. Os profissionais de saúde da região não se limitam a comprar robôs; também publicam ativamente pesquisas clínicas e aperfeiçoam protocolos cirúrgicos. Uma análise bibliométrica abrangente da produção científica sobre cirurgia robótica entre 2009 e 2022 revelou crescimento anual de 22% em toda a América Latina.
As tendências acadêmicas refletem de perto a dinâmica comercial do mercado:
- A urologia foi o tema mais frequente nas pesquisas publicadas, respondendo por 35% dos estudos regionais.
- A cirurgia geral aparece logo em seguida, representando 34% da produção acadêmica.
- Obstetrícia e ginecologia responderam por 12% da literatura publicada.
Do ponto de vista geográfico, essa produção científica é altamente concentrada. México, Chile e Brasil lideram entre os países com maior número total de citações e de autores correspondentes na área. Além disso, a Pontificia Universidad Católica de Chile se destaca como a instituição latino-americana com maior produção de manuscritos sobre cirurgia robótica. Para as equipes comerciais de MedTech, estabelecer parcerias com essas instituições acadêmicas de referência é uma estratégia crítica para formar redes de formadores de opinião (KOLs) e impulsionar a adoção clínica.
Barreiras comerciais e estratégias de entrada no mercado
Apesar dos claros benefícios clínicos, as empresas de MedTech enfrentam barreiras comerciais específicas ao expandir plataformas de cirurgia robótica na América Latina. O desafio mais evidente é o alto investimento inicial necessário para adquirir sistemas robóticos. A integração dessas plataformas exige salas cirúrgicas especializadas, treinamento intensivo de pessoal e equipes dedicadas de manutenção — recursos ausentes em muitos hospitais da região.
Além disso, a cobertura por seguros e planos de saúde continua sendo uma barreira significativa. Em muitos países da América Latina, seguradoras e operadoras de planos de saúde não oferecem cobertura ou reembolso abrangente para procedimentos robóticos. Como resultado, os pacientes acabam arcando com coparticipações e desembolsos diretos mais elevados em comparação com cirurgias laparoscópicas tradicionais ou cirurgias abertas, o que restringe o acesso a um perfil mais limitado e de alta renda.
Para superar essas barreiras, os fabricantes de MedTech precisam adaptar suas estratégias de entrada comerciais e de acesso ao mercado. Empresas bem-sucedidas vêm migrando para estruturas financeiras mais flexíveis, como Robotics-as-a-Service (robótica como serviço, RaaS), contratos de leasing e modelos de pagamento por procedimento. Essas estratégias financeiras mais flexíveis permitem que hospitais privados tenham acesso a tecnologias de ponta sem investimentos de capital proibitivos.
Além disso, os fabricantes estão desenvolvendo sistemas robóticos mais compactos e flexíveis, projetados para reduzir o espaço físico necessário na sala cirúrgica. Por fim, para reduzir as barreiras de treinamento e integração, fabricantes bem-sucedidos estão estabelecendo operações diretas na América Latina, sem depender de distribuidores tradicionais terceirizados, para gerenciar diretamente o acompanhamento especializado de cirurgiões, as garantias estendidas e o suporte ao cliente.
O futuro da robótica médica
O crescimento acelerado da cirurgia robótica na América Latina deixou de ser uma projeção distante e já é uma realidade concreta. Impulsionado pelo rápido envelhecimento da população, pelos investimentos de hospitais privados e por um ambiente acadêmico favorável, o mercado está preparado para seguir em expansão.
Para prosperar nesse mercado, os líderes comerciais de MedTech precisarão ir além da oferta de tecnologias superiores. Para isso, será preciso contar com inteligência localizada, modelos comerciais flexíveis e parcerias estratégicas com as instituições que impulsionam a revolução cirúrgica na região.
Próximos passos
Entre em contato com a GHI para saber mais sobre a rápida expansão da cirurgia assistida por robô e a ascensão da “economia prateada” na América Latina, além de entender como adaptar seus modelos comerciais para superar barreiras de mercado. Nossa equipe de pesquisadores pode fornecer as análises clínicas, acadêmicas e competitivas necessárias para oferecer insights relevantes e apoiar a tomada de decisões estratégicas no seu setor.
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Fontes:
https://www.imarcgroup.com/latin-america-medical-robotics-market
https://www.lek.com/insights/medtech/robotic-assisted-surgery-opportunity-latam
https://www.gminsights.com/industry-analysis/surgical-robots-market
https://mexicobusiness.news/health/news/robotic-surgery-set-rapid-expansion-mexico
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38492059/
https://idataresearch.com/robotic-surgery-growth-regions-and-trends/



