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Guillaume Corpart

O realinhamento geopolítico que está remodelando o mercado de equipamentos médicos na América Latina trouxe impactos profundos para toda a região. Entre os mais significativos está a rápida expansão da fabricação avançada de dispositivos médicos nos países latino-americanos.

Durante anos, o nearshoring foi amplamente associado à transferência de processos de manufatura intensivos em mão de obra para mais perto do mercado norte-americano. No setor de dispositivos médicos, isso tradicionalmente significava a produção de tubos, instrumentos cirúrgicos, descartáveis, componentes moldados e outros produtos de alto volume que podiam ser fabricados com eficiência no México ou na América Central e, em seguida, enviados para o norte. Agora, esse modelo tradicional está evoluindo.

À medida que os fabricantes buscam construir uma maior resiliência na cadeia de suprimentos, reduzir a exposição à Ásia e aproximar a produção dos clientes finais, a América Latina avança na cadeia de valor da tecnologia médica (MedTech). O México e a Costa Rica, em particular, estão desenvolvendo as capacidades especializadas necessárias para fabricar dispositivos cada vez mais sofisticados — incluindo tecnologias cardiovasculares, componentes de neuromodulação, equipamentos cirúrgicos assistidos por robôs e dispositivos médicos conectados digitalmente.

Manufatura avançada no mercado mexicano

O México já é o maior exportador de dispositivos médicos da América Latina e o oitavo maior do mundo, com a maior parte de sua produção destinada aos Estados Unidos. Dados do governo dos EUA estimam que as exportações de dispositivos médicos do México atingiram US$ 9,49 bilhões em 2024, um salto expressivo em relação aos US$ 7,38 bilhões registrados em 2020. [1] Embora essa escala seja impressionante, o aspecto mais relevante é a mudança na natureza dessa produção.

A Baixa Califórnia continua sendo o epicentro do ecossistema de fabricação de dispositivos médicos do México, enquanto Chihuahua e outros polos industriais do norte seguem atraindo investimentos significativos e novos fornecedores. Paralelamente, o governo mexicano está apostando de forma explícita na manufatura avançada, identificando os dispositivos médicos, juntamente com os setores de semicondutores, aeroespacial e automotivo, como os principais impulsionadores para o desenvolvimento de capacidades industriais sofisticadas. Como resultado, a base industrial do país agora é capaz de lidar com usinagem de precisão, montagem automatizada, produção em ambiente estéril, eletrônica especializada, sistemas de qualidade robustos e a integração de dispositivos complexos.

Essa evolução é facilmente visível no nível corporativo. A BD, por exemplo, inaugurou uma unidade fabril de US$ 38,6 milhões em Tijuana, projetada especificamente para produzir tecnologias de gestão de medicamentos para os mercados globais. [3] A unidade fabrica dispensários automatizados, exportando os sistemas acabados para mercados da América do Norte, Europa, África e Ásia. [3]

Isso representa uma proposta estratégica fundamentalmente diferente do que simplesmente operar uma linha de montagem de baixo custo. A instalação integra com perfeição a fabricação, a distribuição global e a proximidade com o mercado dos EUA em um único ecossistema regional. [3]

A ascensão da Costa Rica no setor MedTech

Se o México representa o fator “escala” nessa equação, a Costa Rica demonstra até que ponto a manufatura latino-americana pode avançar para segmentos altamente especializados de MedTech. O país construiu deliberadamente um ecossistema robusto de ciências da vida em torno de fabricantes originais (OEMs) multinacionais, fabricantes contratados (contract manufacturers), fornecedores especializados e uma força de trabalho técnica altamente qualificada. De acordo com a PROCOMER, o setor de dispositivos médicos representou 48% do total das exportações de bens da Costa Rica em 2025, gerando US$ 10,92 bilhões e registrando um crescimento de 25% em relação ao ano anterior. [4]

Mais importante ainda, a base industrial do país tem evoluído continuamente em direção a operações de maior valor agregado e alta complexidade. [4] Atualmente, o setor de dispositivos médicos da Costa Rica concentra-se em áreas terapêuticas sofisticadas, incluindo produtos cardiovasculares e vasculares, ortopedia, endoscopia, sistemas de administração de medicamentos, estética, neuromodulação, dispositivos neuroendovasculares e instrumentos cirúrgicos avançados. [5]

A produção desses dispositivos complexos exige muito mais do que mão de obra de baixo custo; requer processos validados, salas limpas (padrão ISO), equipamentos de precisão, expertise em engenharia, sistemas de qualidade rigorosos e uma força de trabalho apta a operar em ambientes estritamente regulamentados. Para atender a esses requisitos, a Costa Rica tem investido ativamente no desenvolvimento de seus talentos, no fortalecimento da sua rede de fornecedores locais e na construção de uma capacidade institucional voltada para operações de alta complexidade. [4]

Os grandes players globais já perceberam esse movimento. A Boston Scientific, por exemplo, mantém amplas instalações de manufatura na Costa Rica. [6] Da mesma forma, a Cirtec Medical anunciou recentemente planos para mais que dobrar suas operações no país, citando o aumento da demanda nos mercados de neuromodulação, intervenção, eletrofisiologia e cardiopatia estrutural. A empresa destacou a aceleração no tempo de lançamento no mercado (time-to-market), a maior integração vertical e a expansão da capacidade de fabricação como os principais fatores que motivaram o investimento. [7]

Robótica, neuromodulação e a cadeia de suprimentos da IoMT

A próxima fase dessa transição industrial será crucial, à medida que os dispositivos médicos se tornam cada vez mais dependentes de software, conectados e automatizados. A cirurgia assistida por robôs é um excelente exemplo disso. Fabricantes contratados que operam na Costa Rica já estão produzindo componentes de precisão e montagens complexas para plataformas de cirurgia robótica. A MICRO, por exemplo, opera instalações com certificação ISO na Costa Rica, aproveitando seus recursos avançados de usinagem, moldagem, processamento a laser e montagem em salas limpas para atender ao mercado de cirurgia robótica. [8]

A neuromodulação é outro campo em rápido crescimento. Essas tecnologias combinam componentes implantáveis, microeletrônica, manufatura de precisão e softwares sofisticados. Notavelmente, a expansão local da Cirtec tem como alvo específico a neuromodulação, juntamente com as tecnologias intervencionistas, de eletrofisiologia e cardíacas estruturais. [7]

Essa mesma convergência está remodelando as tecnologias médicas conectadas. A estratégia tecnológica oficial da Costa Rica destaca a saúde digital e as tecnologias emergentes como oportunidades centrais de crescimento, enquanto o ecossistema nacional de manufatura continua integrando as capacidades avançadas de produção com a inovação digital. [9]

Essa transformação é fundamental porque a Internet das Coisas Médicas (IoMT) está redefinindo a cadeia de suprimentos tradicional de dispositivos médicos. Monitores conectados, sensores inteligentes, equipamentos controlados por software e dispositivos inteligentes exigem conhecimentos interdisciplinares que transcendem as fronteiras da manufatura convencional.

A cadeia de suprimentos torna-se regional

À medida que a manufatura avançada se expande pela região, seus impactos econômicos e operacionais vão muito além dos muros das fábricas. Uma unidade de dispositivos médicos de alta tecnologia gera uma demanda substancial por ferramentas especializadas, usinagem de precisão, engenharia, manutenção técnica, plásticos especiais, eletrônica, esterilização, embalagem, testes, software e serviços de garantia de qualidade. Com o tempo, essas empresas auxiliares se agrupam em torno dos principais polos de manufatura para formar ecossistemas autossustentáveis.

A infraestrutura comercial já consolidada do México lhe confere uma vantagem significativa. Em 2024, o México exportou aproximadamente US$ 15,5 bilhões em instrumentos e aparelhos médicos, sendo US$ 13 bilhões enviados apenas para os Estados Unidos. [10] A Baixa Califórnia foi responsável por cerca de US$ 5,19 bilhões dessas vendas internacionais. [10]

A Costa Rica está cultivando um ecossistema igualmente especializado, embora em uma escala mais direcionada. A PROCOMER informa que o setor de dispositivos médicos do país gerou US$ 10,92 bilhões em exportações em 2025, apoiado por uma base crescente de fornecedores e exportadores especializados. [4][11]

Para os prestadores de serviços de saúde e os players do mercado em toda a América Latina, essa mudança traz benefícios distintos: distâncias menores entre a produção e os usuários finais, cadeias de suprimentos regionais mais resilientes e uma implantação mais rápida de tecnologias inovadoras.

Isso também redefine o cenário competitivo. Os fabricantes que estão escolhendo locais de produção já não analisam apenas os salários da mão de obra e os custos das instalações; eles avaliam o talento em engenharia, a densidade de fornecedores locais, os marcos regulatórios, a logística, a proteção da propriedade intelectual (PI), os padrões de qualidade, a proximidade com os mercados-chave e a escalabilidade.

O que vem a seguir?

O Nearshoring 2.0 ainda está em pleno desenvolvimento, e a América Latina não substituirá a Ásia como polo global de fabricação MedTech do dia para a noite. No entanto, a trajetória é clara: os principais polos da região estão deixando de ser centros avançados de montagem periféricos para se tornarem, por si só, centros de produção e inovação estrategicamente essenciais.

À medida que os líderes globais do setor de MedTech transferem suas operações de manufatura mais avançadas para a América Latina, as cadeias de suprimentos regionais e os cronogramas de aquisição mudam rapidamente. Para fabricantes, distribuidores, investidores e líderes de saúde, a inteligência estratégica já não se resume apenas a saber quais dispositivos médicos estão entrando na América Latina — e sim onde esses dispositivos são fabricados, quais componentes circulam pelas redes regionais e como essas mudanças redefinem a dinâmica competitiva em todo o mercado.

Você está acompanhando de perto onde a manufatura de produtos MedTech avançados está ocorrendo e como isso afeta os fluxos regionais de importação e exportação? Entre em contato com a GHI hoje mesmo. Nossos dados comerciais detalhados e inteligência de mercado personalizada podem ajudá-lo a mapear essas cadeias de suprimentos emergentes e a garantir uma vantagem competitiva inigualável na América Latina.

 

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Fontes:

https://www.trade.gov/country-commercial-guides/mexico-healthcare-products-services
https://www.trade.gov/market-intelligence/mexico-advanced-manufacturing
https://news.bd.com/2022-11-30-BD-Opens-New-38-6-Million-Medication-Management-Manufacturing-Facility-in-Tijuana
https://procomer.com/mdm-west-2026-procomer-sostuvo-encuentros-con-multinacionales-para-promover-inversion-de-alto-valor-en-costa-rica/
https://procomer.com/buyfromcostarica/manufacturing/wp-content/uploads/2024/08/Fly-Fichas-campana-Manufactura-2022-Medical-Devices.pdf
https://news.bostonscientific.com/expands-production-costa-rica
https://www.cirtecmed.com/news/cirtec-medical-expands-costa-rica-operations-to-support-increased-industry-demand
https://www.micro-co.com/robotic-assisted-surgery-2/
https://www.trade.gov/country-commercial-guides/costa-rica-strategic-and-emerging-technologies
https://www.economia.gob.mx/datamexico/en/profile/product/instruments-and-appliances-used-in-medical-sciences
https://procomer.com/comprador-internacional-industria-especializada/

 

Guillaume Corpart is the CEO and founder of Global Health Intelligence, with more than two decades of experience in market intelligence. He is a recognized expert and thought leader in discussing the medical equipment/devices market in Latin America, having overseen hundreds of studies for the world's top brands in this sector.