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Guillaume Corpart

No domingo, 25 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva derrotou o senador Flávio Bolsonaro na eleição presidencial brasileira, com 51,79% dos votos contra 48,21%. A vitória, com uma vantagem de cerca de 4,4 milhões de votos, garantiu a Lula o quarto mandato.

Em poucas horas, o mercado financeiro brasileiro deu seu veredito sobre o resultado da eleição. Na segunda-feira, o real chegou a cair 12% em relação ao dólar, que atingiu R$ 5,60, ante R$ 4,98 no fechamento da sexta-feira anterior. Desde então, a moeda brasileira recuperou parte das perdas, mas segue bem abaixo do nível anterior à eleição.

Para os executivos do setor de dispositivos e tecnologias médicas, o momento dificilmente poderia ser pior. O mercado brasileiro de dispositivos médicos atravessa um período de forte crescimento, que pode ser interrompido pela instabilidade cambial. Além disso, o setor já vinha se adaptando a uma nova política industrial nacional para a saúde e à exigência de rastreabilidade pelo sistema de Identificação Única de Dispositivos Médicos (UDI). A turbulência cambial complica ainda mais os negócios no país.

A leitura convencional é simples: a desvalorização do real encarece os dispositivos importados. A leitura mais útil, porém, é que o choque atinge um mercado cuja dependência estrutural de importações aumenta a cada ano e encontra um governo que agora dispõe de um marco legal para usar essa dependência como alavanca.

Como interpretar a reação do mercado

A onda de vendas foi menos um julgamento sobre Lula do que o desmonte de uma aposta. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno, em 4 de outubro, com uma pequena vantagem, e os investidores passaram a precificar um governo de orientação fiscal conservadora. Quando Lula se tornou o primeiro candidato desde 1989 a vencer o segundo turno após ficar atrás no primeiro, essas posições foram revertidas de uma só vez.

Os números da primeira semana de pregões falam por si:

  • Câmbio. O real chegou a perder 12% no mercado à vista na segunda-feira. O dólar fechou a terça-feira a R$ 5,35, ainda cerca de 7% acima do nível anterior à eleição.
  • Bolsa. O Ibovespa chegou a cair 10% durante o pregão, acionando o circuit breaker, que suspendeu as negociações por 30 minutos. O índice encerrou o dia com queda de quase 14%.
  • Juros. Os juros futuros dispararam, refletindo a expectativa dos operadores de que a política monetária permaneceria restritiva por mais tempo.
  • Política. Flávio Bolsonaro se recusou a reconhecer a derrota e pediu a anulação do resultado, embora seu partido, o Partido Liberal, tenha reconhecido a vitória de Lula em 26 de outubro.

No fundo, a preocupação é fiscal. A dívida pública equivale a cerca de 83% do PIB, e analistas do Commerzbank avaliam que a trajetória do real depende agora da rapidez com que o novo governo conseguirá tornar críveis os compromissos de ajuste fiscal. O próximo sinal virá em 4 de novembro, quando o Copom, do Banco Central, anunciar a decisão sobre os juros. A Selic está em 13,75% após cinco cortes consecutivos, e, antes da eleição, o consenso era de que haveria novas reduções. Agora, esse consenso está em xeque.

Para as empresas do setor de dispositivos médicos, a distinção é importante. Uma disparada do dólar que dure uma semana é um incômodo na formação de preços. Já a desvalorização persistente do real, combinada à manutenção da Selic em patamares elevados por mais tempo, compromete a demanda: reduz o poder de compra dos clientes brasileiros e encarece o financiamento das compras.

Dependência estrutural e choque cambial

Segundo a ABIMO, entidade que representa a indústria nacional de dispositivos médicos, o mercado brasileiro atingiu R$ 85,4 bilhões em 2025, com crescimento de 13,9% em relação ao ano anterior. Apesar desse crescimento, a exposição do Brasil às oscilações cambiais aumentou nos últimos cinco anos. Isso se deve à maior dependência de importações e aos seguintes fatores:

  • Perda de participação da indústria nacional. Em 2021, os fabricantes nacionais respondiam por 45,8% do mercado. Em 2025, essa participação havia caído para cerca de 35%.
  • Déficit crescente. O déficit comercial do setor chegou a US$ 9,9 bilhões em 2025, aproximadamente o dobro do registrado em 2020, com importações superiores a US$ 11 bilhões.
  • Sem sinais de reversão. Nos primeiros nove meses de 2026, o déficit já somava US$ 8,73 bilhões, com alta de 14% nas importações e queda de 8,57% nas exportações.
  • Concentração dos países fornecedores. Os principais fornecedores são Estados Unidos, Alemanha, China, Irlanda e Suíça.

A constatação que mais deveria preocupar os executivos é justamente a que raramente chega às manchetes: a produção nacional não protege contra o risco cambial. Os fabricantes brasileiros dependem fortemente de componentes eletrônicos, sensores, polímeros e peças de precisão importados. Um fabricante nacional de monitores de pacientes ou bombas de infusão pode faturar em reais, mas boa parte dos materiais e componentes usados na fabricação é cotada em dólar. Por causa dessa dinâmica de produção, qualquer choque cambial atinge todo o mercado, com defasagens distintas entre fabricantes estrangeiros e nacionais.

Quem absorve o choque

O custo da desvalorização do real não se distribui de maneira uniforme. Ele se propaga pelo sistema de saúde brasileiro conforme as condições dos contratos, os ciclos de pagamento e os calendários regulatórios. Cada segmento sente os efeitos de forma diferente.

 

Exposição imediata

Como o choque se propaga

Resposta provável

Setor público (SUS)

Licitações e atas de registro de preços com valores em reais, calculados com base no câmbio anterior à eleição.

Redução das margens dos fornecedores nos contratos vigentes; novas propostas com preços mais altos, diante de orçamentos fixos.

Mais licitações fracassadas ou desertas, mais pedidos de reequilíbrio econômico-financeiro dos contratos e preferência mais forte por fornecedores nacionais.

Hospitais privados

Materiais de consumo, implantes e peças de reposição importados, comprados ao câmbio atual.

A maior parte da receita dos hospitais privados vem das operadoras de planos de saúde, cujos reajustes se baseiam em custos passados. Por isso, os hospitais arcam com a defasagem durante meses.

Adiamento de investimentos em equipamentos de diagnóstico por imagem e cirúrgicos; renegociações mais duras dos preços de materiais de consumo.

Fabricantes multinacionais

Custos em dólar e receitas em reais.

Perdas na conversão cambial das receitas no Brasil; aumentos dos preços no país esbarram nos limites orçamentários dos compradores.

Reajustes seletivos de preços, ciclos de vendas mais longos e maior foco na oferta de serviços e financiamento.

Fabricantes nacionais

Componentes e insumos importados.

Os custos dos insumos sobem, mas os produtos importados da concorrência encarecem mais rapidamente.

Vantagem relativa nas licitações, limitada pela pressão sobre o capital de giro e pelo crédito mais caro.

Dois aspectos merecem atenção especial: em primeiro lugar, os equipamentos estão muito mais expostos ao choque do que os materiais de consumo. Um hospital pode adiar por um ano a troca de um tomógrafo, mas não a compra de cateteres. Executivos com portfólios concentrados em equipamentos devem esperar que parte das vendas previstas fique para 2027. Em segundo lugar, o encarecimento do financiamento agrava o impacto do câmbio. Se a Selic permanecer próxima dos níveis atuais, tanto o leasing quanto a compra financiada de equipamentos ficarão mais caros, justamente quando sobe o preço desses equipamentos em reais.

A variável política: um choque cambial acompanhado de uma estratégia industrial

É aqui que está a novidade. Em 2015 ou 2020, a queda do real era apenas uma questão de custos. Em 2026, ela coincide com um marco legal criado para redefinir quem fornece para o sistema público de saúde brasileiro.

Em 20 de julho, Lula sancionou a Lei nº 15.471/2026, que torna a Estratégia Nacional de Saúde do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS) uma política de Estado permanente. O objetivo declarado é usar o poder de compra do SUS para reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros de medicamentos, vacinas e dispositivos médicos. Entre as principais disposições estão:

  • Empresas Estratégicas de Saúde. Uma nova categoria para empresas com sede, administração e produção no Brasil e pelo menos 51% do capital votante sob controle nacional. Essas empresas podem receber tratamento preferencial nas compras públicas e prioridade nos processos regulatórios.
  • PDPs permanentes. As Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs), que transferem tecnologia de empresas privadas para laboratórios públicos, passam a ser instrumentos permanentes e incluem expressamente os dispositivos médicos.
  • Regulamentação pendente. O Ministério da Saúde ainda precisa definir os critérios de enquadramento como Empresa Estratégica de Saúde e estabelecer as prioridades de investimento.

Com o mandato renovado por mais quatro anos, o governo tem tempo e capital político para implementar esse marco. O real mais fraco reforça essa estratégia. Cada ponto de desvalorização funciona como uma tarifa informal sobre os dispositivos importados e reduz a diferença de preços que os fabricantes nacionais têm dificuldade para eliminar. O governo pode apontar o choque cambial como prova de que as cadeias de suprimentos em saúde são uma questão de soberania.

Para as multinacionais, isso muda a equação. A pergunta já não é como absorver uma perda cambial, mas se o próximo ciclo de compras no Brasil favorecerá empresas com produção local, parceiros locais ou participação em uma PDP.

Perspectivas estratégicas para os fabricantes

Os próximos 90 dias separarão as empresas que tratam esse choque como um episódio cambial daquelas que o encaram como uma reconfiguração do mercado. Independentemente das oscilações do câmbio, os fundamentos da demanda no sistema de saúde brasileiro continuam intactos: uma população numerosa que está envelhecendo, um sistema público universal e um setor privado sofisticado. O que mudou foram os custos de acesso ao mercado e as regras para conquistar contratos públicos.

Os executivos devem considerar cinco medidas:

  1. Reajustar os preços por segmento, não de forma generalizada. Materiais de consumo sem substituto nacional comportam aumentos seletivos de preços. Se houver risco de adiamento da compra de equipamentos, manter os preços e oferecer financiamento flexível pode ser a melhor saída.
  2. Auditar os contratos vigentes com o SUS. O objetivo é identificar os contratos com preços calculados pelo câmbio anterior à eleição e avaliar se cabe pedido de reequilíbrio econômico-financeiro antes que as margens encolham ainda mais.
  3. Acompanhar a decisão de 4 de novembro. A decisão do Copom indicará se os juros continuarão elevados em 2027, com efeitos diretos sobre os investimentos dos hospitais e a demanda por leasing de equipamentos.
  4. Reavaliar a estratégia de produção no país. As regras ainda pendentes sobre as Empresas Estratégicas de Saúde definirão quem terá preferência nas licitações públicas. A montagem local, a fabricação terceirizada ou a participação em uma PDP agora têm peso estratégico, além do impacto nos custos.
  5. Mapear a base instalada. Com o adiamento dos investimentos em equipamentos, contratos de serviços, atualizações e peças de reposição passam a sustentar a receita. É fundamental saber quais equipamentos cada hospital usa e qual a idade deles.

Para os fabricantes brasileiros, o cenário traz oportunidades e riscos. O real mais fraco melhora a competitividade das exportações e favorece esses fabricantes nas licitações no país, mas o encarecimento dos insumos e do financiamento vai pôr à prova o capital de giro. Estarão em melhor posição os fabricantes com cadeias de suprimentos diversificadas e acesso às linhas de crédito do BNDES previstas no novo marco legal.

Conclusão

A queda do real após a eleição não é só uma dor de cabeça na formação de preços. Ela mostra o quanto o mercado brasileiro de dispositivos médicos se tornou dependente de importações e dá ao governo recém-reeleito um argumento convincente a favor da política industrial que ele já transformou em lei. Sairão na frente as empresas que entenderem o choque cambial e o marco legal do CEIS como partes de uma mesma história.

Para atuar nesse cenário, é preciso saber com clareza onde está a demanda hoje. Sua equipe está reavaliando as oportunidades de vendas no Brasil diante do resultado da eleição? Entre em contato com a Global Health Intelligence. Os dados da GHI sobre hospitais e equipamentos podem ajudar a identificar quais instituições têm maior probabilidade de adiar compras, onde sua base instalada oferece oportunidades de serviços e quais redes públicas mais importam à luz das mudanças nas regras de licitação.

 

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Fontes:

  1. Brazil Runoff Results, The Rio Times
  2. Brazil’s Real Plunges After Lula’s Surprise Election Win, Trading Economics
  3. Brazil’s real sinks after Lula’s re-election victory, Al Jazeera
  4. Brazil’s Real Recovers After Election Rout, The Rio Times
  5. Brazilian Real: Post-election risks as Lula returns, FXStreet / Commerzbank
  6. Brazil Rate Forecasts Predate Election Shock, The Rio Times
  7. Indústria brasileira de dispositivos médicos no Conahp 2026, Brasil Inovador
  8. Sinal amarelo para a indústria brasileira de dispositivos médicos, Congresso em Foco
  9. ABIMO trade balance, first nine months of 2026
  10. Lula sanciona lei que cria estratégia industrial da saúde, Poder360
  11. Lei do Complexo da Saúde, Revista Fórum
  12. Lula sanciona lei que cria política para produção nacional, Sou Brasília

 

Guillaume Corpart is the CEO and founder of Global Health Intelligence, with more than two decades of experience in market intelligence. He is a recognized expert and thought leader in discussing the medical equipment/devices market in Latin America, having overseen hundreds of studies for the world's top brands in this sector.