Guillaume Corpart
Em meio à persistente incerteza que afeta as cadeias de suprimentos em todo o mundo, muitos países latino-americanos vêm recorrendo cada vez mais ao nearshoring (isto é, a transferência de parte da produção para países próximos ao mercado consumidor) como possível resposta à volatilidade de custos e aos entraves nas compras. Apesar dos custos de curto prazo associados ao investimento em manufatura local e logística, as vantagens de longo prazo incluem o aumento da estabilidade e a redução do custo total ao adquirir equipamentos e insumos de fornecedores locais, em vez de depender de fornecedores no exterior.
A mudança de paradigma na cadeia de suprimentos
A transição para o nearshoring é debatida há anos nos conselhos e escritórios do setor de medtech, mas agora vem se consolidando cada vez mais como realidade, e não apenas como teoria. A América Latina, em particular, oferece diversas vantagens como destino para nearshoring:
- Menores custos de transporte e mão de obra. Contar com fabricantes e fornecedores mais próximos pode reduzir os custos de transporte, enquanto a mão de obra latino-americana continua competitiva em comparação com outras regiões.
- Comunicação mais simples e alinhamento de fuso horário. A elevada proficiência em inglês em diversos mercados da América Latina favorece a comunicação com clientes, e o fato de a região compartilhar fusos horários com empresas norte-americanas viabiliza interações em tempo real.
- Mão de obra qualificada. A América Latina dispõe de mão de obra altamente qualificada em manufatura, tecnologia e outros setores estratégicos.
- Prazos de entrega mais curtos. Com fornecedores mais próximos, as empresas não precisam se planejar com tanta antecedência para obter o que precisam.
- Acordos comerciais mais favoráveis e apoio dos governos locais. Muitos governos latino-americanos vêm promovendo ativamente o nearshoring e estruturando acordos favoráveis para torná-lo mais atraente a potenciais parceiros comerciais.
Quando se consideram todos esses fatores em conjunto, fica fácil entender por que a América Latina vive um forte avanço do nearshoring. Somem-se a isso as tensões geopolíticas em curso no mundo, a alta dos custos globais de transporte marítimo e outras vulnerabilidades nas cadeias de suprimentos, e o nearshoring se torna ainda mais atrativo para as grandes empresas regionais do setor de dispositivos médicos. [1]
Exemplos em ação
Basta olhar para a região para perceber como o nearshoring vem ganhando força. No México, por exemplo, o governo anunciou recentemente o arcabouço da licitação consolidada do setor de saúde para 2027-2028. Uma das novidades é que as empresas que investem localmente agora passam a ter vantagem significativa nesse processo de compras públicas. A próxima licitação adotará um sistema de avaliação por pontos que favorece empresas com maior presença operacional no México.
Os pontos serão atribuídos com base nos seguintes critérios::
- Infraestrutura de manufatura: empresas com unidades locais de produção ou laboratórios de P&D receberão mais pontos no novo sistema.
- Parcerias estratégicas: empresas que colaboram com a Birmex ou com universidades mexicanas em iniciativas de transferência de tecnologia também podem somar pontos.
- Geração de empregos: fornecedores em potencial que comprovem investimento na força de trabalho mexicana terão vantagem. [2]
Embora ter uma fábrica local não seja requisito obrigatório para participar, isso pode funcionar como critério de desempate entre empresas que oferecem produtos semelhantes a preços semelhantes. Em um mercado em que 65% dos insumos ainda são importados, o governo está usando seu poder de compra para estimular o nearshoring na indústria médica. [3]
A ascensão dos polos de alta tecnologia
Outro desdobramento importante do nearshoring na América Latina é a evolução da região, que vem deixando de se concentrar em suprimentos médicos básicos e passando a atuar na produção e na manufatura de alta tecnologia. Esse crescimento vem sendo impulsionado pelo desenvolvimento de polos de inovação em toda a região. São áreas que priorizam o avanço tecnológico e que, com frequência, atraem investidores de capital de risco necessários para impulsionar esse crescimento.
Por exemplo, a Cidade do México é frequentemente chamada de “Vale do Silício da América Latina”. Graças à proximidade com os Estados Unidos, a cidade funciona como um polo estratégico de dupla vocação, atendendo tanto às exportações como ao abastecimento do mercado interno.
Mas o México está longe de ser o único país a apostar em inovação tecnológica. No Brasil, por exemplo, a predominância contínua da produção local tem ajudado as empresas a contornar a elevada carga tributária sobre importações e a aproveitar o vasto mercado doméstico. Outros polos com ecossistemas relevantes de startups de tecnologia e financiamento de capital de risco incluem Costa Rica, São Paulo, Buenos Aires, Bogotá, Santiago e diversas outras localidades da América Latina.
A oferta de talentos em tecnologia nessas regiões é ampla e crescente e, em muitos casos, esses mercados oferecem custos mais competitivos do que outras regiões, o que os torna destinos atraentes para empresas de tecnologia e fundos de capital de risco. No fim de 2023, o Fórum Econômico Mundial afirmou que a América Latina estava “prestes a se tornar uma potência global em inovação”. [4]
A guerra de preços e a pressão sobre as margens
O avanço e a consolidação do nearshoring na América Latina vêm aumentando a pressão legítima para que as empresas tradicionais se adaptem ou corram o risco de perder oportunidades relevantes. Com países como o México passando a incentivar o investimento local como parte de seus processos licitatórios, empresas que dependem exclusivamente de importações podem acabar perdendo clientes estratégicos de longa data para alternativas fabricadas localmente. [5]
Considerando os possíveis ganhos decorrentes da eliminação dos custos de transporte transatlântico, da redução das tarifas de importação e da menor exposição a cadeias de suprimentos instáveis, essa é uma tendência que pode merecer atenção nas operações de manufatura e logística da sua empresa. [5]
Principais conclusões para empresas do setor de saúde
Como se vê, nos últimos anos o nearshoring na América Latina deixou de ser apenas uma possibilidade teórica e vem se tornando uma realidade cada vez mais concreta. As empresas que desejam adaptar sua estratégia de preços e vendas para competir precisam acompanhar, em tempo real, o que os concorrentes locais estão fazendo.
A Global Health Intelligence oferece as ferramentas necessárias para que a sua empresa se mantenha na vanguarda das tendências do setor. Com o PriceScope, por exemplo, é possível acompanhar os preços efetivamente praticados, em nível transacional, nas instituições públicas. Isso permite que a sua equipe de vendas veja com precisão como seus preços se comparam aos dos concorrentes que apostam no nearshoring.
Com o BrandTrack, sua empresa pode comparar seu desempenho diretamente com o da concorrência. Isso possibilita que a sua equipe comercial acompanhe as variações trimestrais de receita e proteja sua participação de mercado ao identificar movimentos antes mesmo que se tornem evidentes para a concorrência.
Próximos passos
Entre em contato com a GHI para saber mais sobre o avanço do nearshoring na América Latina e entender como você pode ajustar a estratégia da sua empresa a esse cenário em transformação. Nossa equipe de pesquisadores pode oferecer as análises e insights valiosos de que a sua empresa precisa para tomar decisões mais estratégicas no seu setor.
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Fontes:
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- https://latinamericasourcing.com/article/the-2025-nearshoring-index-why-latam-is-now-north-americas-natural-partner
- https://mexicobusiness.news/health/news/mexico-advances-drug-procurement-avoid-supply-gaps
- https://go.gale.com/ps/i.do?id=GALE%7CA846864038&sid=sitemap&v=2.1&it=r&p=IFME&sw=w&userGroupName=anon%7E14d562bf&aty=open-web-entry
- https://www.weforum.org/stories/2023/09/see-how-latin-america-is-becoming-a-thriving-innovation-hub/
- https://americasquarterly.org/article/nearshoring-in-latin-america-who-could-benefit-most/
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