Mariana Romero Roy
Uma onda histórica de modernização hospitalar está se espalhando pela América Latina. No entanto, a modernização é apenas uma peça do quebra-cabeça na região. Cada vez mais, esse processo também deve andar de mãos dadas com uma nova exigência: a sustentabilidade global. À medida que os governos obtêm financiamento de instituições multilaterais para construir os hospitais de 2030, os critérios ambientais, sociais e de governança (ESG) estão deixando de ser meros “diferenciais” (ou complementos desejáveis) para se tornarem requisitos obrigatórios na pontuação das contratações públicas.
Para os fornecedores do setor MedTech, as regras do jogo estão mudando. Um produto clínico de última geração já não é suficiente para garantir um contrato regional. Nas licitações públicas do futuro próximo, os dispositivos mais ecológicos poderão prevalecer sobre os mais baratos.
A exigência do financiamento
O avanço em direção às Compras Públicas Sustentáveis (CPS) não é apenas uma tendência: é um requisito financeiro. O boom de infraestrutura é fortemente financiado por instituições como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Por meio de sua Estrutura de Gestão de Impacto, o BID Invest vincula o financiamento de infraestrutura e saúde diretamente a rigorosos critérios ESG, incluindo normas relacionadas a salvaguardas ambientais e metas de redução de gases de efeito estufa.
A realidade na prática
Os requisitos ambientais mais rigorosos desses investidores já estão gerando um efeito cascata em diversos países da América Latina. Nações como a Colômbia e a República Dominicana, por exemplo, estão atualizando ativamente seus manuais nacionais de compras para tornar obrigatórias as Compras Públicas Sustentáveis (CPS).
Antes que um único dólar seja desembolsado para um novo hospital na Colômbia ou para a modernização de uma clínica na República Dominicana, o projeto deve estar alinhado às metas de resiliência climática e de redução de gases de efeito estufa (GEE). Consequentemente, os governos nacionais estão estendendo esses requisitos ambientais às suas cadeias de suprimentos — o que significa que os equipamentos médicos destinados a esses hospitais também devem atender a rigorosas métricas de sustentabilidade.
As diretrizes no Chile
Outro excelente exemplo encontra-se no Chile. Por meio de sua plataforma “Mercado Público” e da iniciativa “Estado Verde”, os compradores governamentais são explicitamente orientados a olhar além do preço inicial de compra. As diretrizes chilenas de compras estabelecem que as entidades públicas devem avaliar a “melhor relação custo-benefício ao longo de todo o ciclo de vida”, o que lhes permite atribuir pontuações de avaliação mais altas aos fornecedores cujos produtos demonstrem uma menor pegada ecológica.
A abordagem do Brasil
O Brasil também possui uma lei de compras públicas — promulgada em 2021 e agora plenamente em vigor — que tem um impacto semelhante. Em termos simples, a legislação brasileira permite que os gestores de compras rejeitem a proposta de menor preço em favor de dispositivos com um desempenho ambiental superior ao longo de seu ciclo de vida. Essa simples mudança revolucionou o processo de aquisições no Brasil, tornando a sustentabilidade ambiental, em muitos casos, um fator mais determinante do que apenas o preço.
Mudanças em toda a região
Esses países estão longe de ser os únicos da América Latina a avançar em direção às “compras verdes”. Na verdade, a Rede Interamericana de Compras Governamentais (RICG) tem atuado intensamente na padronização das aquisições sustentáveis em toda a região. Essa rede publica relatórios sobre como diferentes países latino-americanos estão impulsionando as políticas de CPS. Seu manual sobre a Implementação de Compras Públicas Sustentáveis na América Latina e no Caribe detalha com precisão como os critérios ambientais estão sendo integrados às especificações técnicas e às adjudicações de contratos em nível regional.
A perspectiva MedTech: da conformidade à vantagem competitiva
Os administradores hospitalares e os comitês de compras públicas estão sob intensa pressão para reduzir a enorme pegada de carbono e de resíduos gerada pelo setor de saúde. Quando os governos avaliam uma licitação multimilionária para equipar uma nova ala hospitalar, eles penalizam cada vez mais os equipamentos que consomem energia em excesso, utilizam materiais não recicláveis ou carecem de programas seguros de descarte no fim de sua vida útil.
Para ter sucesso nesse ambiente, as equipes comerciais do setor MedTech devem aprender a traduzir seus relatórios corporativos globais de ESG em vantagens competitivas adaptadas ao contexto local. Isso exige uma mudança estratégica na forma como os produtos são apresentados aos ministérios da saúde regionais:
- Eficiência no ciclo de vida: Destacar o menor consumo de energia e de água durante a operação do dispositivo.
- Integração à economia circular: Enfatizar a reparabilidade modular para reduzir o lixo eletrônico e promover programas ativos de “logística reversa” ou recolhimento para o descarte seguro no fim da vida útil.
- Embalagem sustentável: Demonstrar uma redução no uso de plásticos descartáveis e de materiais de embalagem não recicláveis em remessas a granel.
À medida que a América Latina constrói um futuro sustentável para a área da saúde, os fornecedores capazes de oferecer “soluções verdes” comprovadas não apenas garantirão pontuações mais altas nas avaliações, como também assegurarão contratos de longo prazo para os maiores projetos de infraestrutura da região.
Próximos passos
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Fontes:
https://idbinvest.org/en/impact-management-framework
https://www.chilecompra.cl/2023/03/compras-publicas-sustentables-para-avanzar-hacia-un-estado-verde/
https://www.meddeviceonline.com/doc/new-sustainability-mandates-in-brazil-and-chile-are-quietly-disqualifying-medical-devices-0001
https://noharm.org/procurement
https://ricg.org/en/



