Guillaume Corpart
A América Latina vivencia atualmente uma das expansões de infraestrutura de saúde mais importantes de sua história. Desde a agressiva iniciativa do México para atingir uma capacidade de 45.000 leitos em hospitais públicos por meio do IMSS, até a estratégia focada em “Saúde 2030” da Colômbia, os governos estão injetando enormes volumes de capital para modernizar a assistência em nível regional.
Apesar da rápida construção e inauguração desses megaprojetos de saúde, a região enfrenta um obstáculo operacional crítico: uma grave escassez de profissionais clínicos para operá-los. De acordo com um relatório de 2025 da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), 14 dos 39 países das Américas carecem atualmente de médicos, enfermeiros e parteiras em número suficiente para atender às necessidades de saúde de suas populações.
Sem uma intervenção imediata, a OPAS projeta que as Américas enfrentarão um déficit de 600 mil a 2 milhões de profissionais de saúde até 2030. Essa escassez iminente é impulsionada por diversos fatores, incluindo o envelhecimento da força de trabalho, a migração e a capacidade limitada de formação dos profissionais. Mas uma coisa é certa: isso ameaça comprometer o acesso universal à saúde justamente no momento em que as novas infraestruturas começam a operar.
As realidades da escassez
Embora a região como um todo apresente uma média de 66,57 profissionais de saúde para cada 10.000 habitantes (superando o parâmetro de referência da OMS de 44,5), esse número esconde graves desigualdades. Por exemplo, enquanto países como os Estados Unidos contam com uma cobertura robusta, outros como o Haiti (6,38) e Honduras (7,13) enfrentam uma escassez crítica.
Um claro exemplo dessa desigualdade pode ser observado na área de enfermagem. Nos Estados Unidos, por exemplo, há 131,5 enfermeiros para cada 10.000 habitantes. No Haiti, no entanto, esse número é de apenas 3,84 para cada 10.000 pessoas.
Soluções para a crise
Para enfrentar essa crise nos próximos anos, a OPAS recomendou diversas medidas de ação para os sistemas de saúde da região. Entre elas estão o fortalecimento dos departamentos de recursos humanos e o uso de sistemas de informação em saúde para monitorar e planejar as necessidades futuras de recursos. Investimentos estratégicos em capacitação, regulamentações e melhorias nas condições de trabalho também são essenciais para aumentar o número de profissionais de saúde e, assim, atender às necessidades da população regional nos próximos anos. Políticas que ajudem a reter os talentos essenciais também serão fundamentais.
A crise é de tal magnitude que a Organização Mundial da Saúde (OMS) a identificou e começou a elaborar planos de ação para enfrentá-la em 2024. Entre suas recomendações estão a ampliação da formação de profissionais de saúde, a abordagem de questões relacionadas à igualdade de gênero e ao empoderamento das mulheres, além da adoção de medidas para reter os profissionais de saúde em áreas rurais e remotas.
A realidade a curto prazo
Por mais essenciais que sejam essas mudanças nas políticas, a escassez é tão crítica que o setor de saúde latino-americano precisa se preparar para o “aqui e agora”, à medida que a demanda aumenta, mas não há profissionais disponíveis. Para os administradores hospitalares, isso significa gerenciar um ambiente de alto estresse com capital humano limitado. Nos principais mercados de toda a América Latina, os profissionais clínicos enfrentam uma imensa carga cognitiva devido a proporções inadequadas entre enfermeiros e médicos e altas taxas de esgotamento profissional (burnout). Um hospital recém-construído e de última geração só é eficaz na medida em que conta com profissionais para operá-lo — e, até 2030, essa equipe estará mais sobrecarregada do que nunca.
O imperativo para o setor MedTech: potencializar o capital humano
Para o setor de tecnologia médica (MedTech), a iminente crise de força de trabalho na América Latina muda fundamentalmente a forma como os equipamentos médicos são vendidos e avaliados. Os administradores hospitalares e os comitês de compras governamentais não buscam mais apenas a eficácia clínica; eles precisam desesperadamente de eficiência operacional.
Para vencer licitações públicas e contratos de infraestrutura nesse cenário, os fornecedores de MedTech devem provar que suas soluções podem potencializar o capital humano e reduzir a carga cognitiva sobre a equipe atual. Isso exige uma mudança estratégica voltada para:
- Automação dos fluxos de trabalho: Os equipamentos devem se integrar perfeitamente aos prontuários eletrônicos (PEP/EHR) para eliminar a entrada manual de dados, permitindo que os enfermeiros dediquem mais tempo ao atendimento aos pacientes em vez de a tarefas administrativas.
- Interfaces intuitivas: Diante da alta rotatividade de pessoal e da escassez de colaboradores especializados, os dispositivos médicos devem contar com interfaces intuitivas e padronizadas que exijam um treinamento mínimo para uma operação segura.
- Análise preditiva: Sistemas de monitoramento de pacientes baseados em inteligência artificial (IA), capazes de alertar uma equipe clínica reduzida sobre a deterioração do quadro de um paciente antes que ocorra um evento agudo, serão altamente demandados.
À medida que a América Latina constrói os hospitais do amanhã, as empresas MedTech que dominarão o mercado em 2030 serão aquelas que resolverem a equação da força de trabalho. A estratégia vencedora não consiste mais apenas em vender melhores ferramentas cirúrgicas ou de diagnóstico — e sim em fornecer a tecnologia que permita que uma equipe clínica limitada faça mais com menos.
Próximos passos
Entre em contato com a GHI para saber mais sobre a iminente escassez de profissionais de saúde na América Latina e descobrir como você pode otimizar a estratégia da sua empresa para alcançar o sucesso. Nossa equipe de pesquisadores pode fornecer a análise necessária para obter insights valiosos que apoiem a tomada de decisões estratégicas em seu setor.
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Fontes:
https://www.paho.org/en/news/30-4-2025-new-paho-report-reveals-14-countries-americas-face-health-worker-shortages
https://iris.paho.org/server/api/core/bitstreams/0294f08d-e494-477d-bb02-859eb17745af/content
https://oem.com.mx/elsoldemexico/mexico/imss-sumara-45-mil-camas-hospitalarias-en-el-pais-para-2030-27799500
https://www.fimasd.org/wp-content/uploads/2026/02/11.-COLOMBIA-2030-Salud.pdf
https://www.who.int/publications/i/item/9789241511131
https://apps.who.int/gb/ebwha/pdf_files/EB156/B156_15-en.pdf



